A Embraer está de malas prontas para o Singapore Airshow, evento que acontece entre 3 e 8 de fevereiro, e o recado que a fabricante brasileira tenta passar ao mercado é bastante claro: a região da Ásia-Pacífico é o seu principal motor de expansão. A companhia planeja aterrissar no evento com um portfólio de peso, exibindo o jato comercial E195-E2 e o cargueiro tático KC-390 Millennium. A ideia é marcar território e alavancar a presença da marca em absolutamente todas as suas unidades de negócio, englobando a aviação comercial, de defesa, serviços, suporte e também o segmento de jatos executivos.
Francisco Gomes Neto, presidente e CEO da Embraer, tem batido na tecla de que as oportunidades nos setores aeroespacial e de defesa asiáticos são vitais para o caixa da empresa. Na leitura da diretoria, as companhias aéreas da região estão começando a enxergar a família E-Jets e a nova geração E2 não apenas como aviões, mas como ativos estratégicos essenciais para otimizar e fortalecer a conectividade regional. Paralelamente, o KC-390 vem ganhando uma tração inegável no cenário global, um reflexo direto da sua confiabilidade e capacidade de realizar múltiplas missões sob condições exigentes.
O olhar para a inovação também tem um espaço garantido na estratégia da companhia para o evento asiático. A Eve Air Mobility, braço do grupo voltado para o desenvolvimento dos eVTOLs, será um dos braços fortes em Cingapura. A subsidiária chega ao evento respaldada por um avanço técnico importante cravado em dezembro de 2025: a realização do primeiro voo do seu protótipo em escala real e não tripulado, dentro das próprias instalações de teste da Embraer. É um projeto de engenharia complexo, cujas operações de ensaio em voo ainda vão se estender pesadamente ao longo de todo o ano de 2026.
Toda essa ofensiva de marketing e tecnologia, no entanto, frequentemente esbarra na dinâmica brutal do mercado de aviação e na fidelidade das companhias aéreas aos seus fornecedores tradicionais. Um retrato fiel dessa barreira invisível foi a recente encomenda de 150 jatos A220 feita pela AirAsia, a gigante low-cost da Malásia. O negócio representou uma vitória expressiva para a Airbus e para o modelo derivado do antigo programa CSeries da Bombardier, deixando a Embraer de fora de um dos contratos regionais mais cobiçados dos últimos tempos.
A liderança da Embraer tem plena consciência do terreno em que está pisando. Durante a teleconferência de apresentação dos resultados do primeiro trimestre, Gomes Neto jogou limpo sobre os bastidores dessa disputa bilionária. Ele confirmou que a fabricante brasileira entrou agressivamente na briga tentando emplacar a família E2, mas precisou lidar com um cenário onde a balança já estava inclinada. O relacionamento longo e consolidado da AirAsia com a fabricante europeia ditou as regras do jogo e acabou sendo o fator decisivo para o desfecho da campanha.
Tentar convencer uma companhia aérea que já opera uma frota composta integralmente por aeronaves da Airbus a abraçar uma nova plataforma — o que implica em treinar pilotos do zero e redesenhar cadeias de manutenção — é um desafio logístico e financeiro tremendo. “Eles são um operador exclusivo Airbus, então a Airbus tinha uma vantagem natural lá”, resumiu o CEO. É o tipo de situação que escancara a realidade fria do setor aeroespacial comercial: ter uma máquina altamente eficiente e competitiva como o E195-E2 é fundamental, mas nem sempre é o suficiente para quebrar a inércia de um cliente cujo ecossistema já foi completamente moldado pela concorrência.