Se o termo “Big Tech” ainda soa estranho para alguns, a onipresença dessas empresas no cotidiano torna impossível não reconhecer seus produtos. A cada notificação no celular, busca na internet ou compra online, estamos interagindo com soluções tecnológicas que definem a era moderna. Essas gigantes não apenas dominam o cenário global de produção de informações, mas exercem um poder econômico e cultural avassalador, moldando a rotina de bilhões de pessoas.
Do Vale do Silício para o Controle Global
Historicamente, a gênese dessas corporações remonta à segunda metade do século XX, impulsionada pela globalização e, posteriormente, pela explosão da internet. O que começou com pequenas startups criando serviços disruptivos e escaláveis — majoritariamente sediadas no Vale do Silício, na Califórnia — transformou-se em conglomerados que operam em escala planetária. Embora o Brasil possua empresas regionais relevantes e filiais dessas organizações, a soberania tecnológica permanece concentrada nos Estados Unidos.
Nesse panteão, destacam-se as chamadas “Big Five”: Amazon, Apple, Google (Alphabet), Meta (Facebook) e Microsoft. Juntas, essas companhias controlam cerca de 80% do mercado, sendo responsáveis pela maior parte da inovação e desenvolvimento tecnológico atual. A magnitude financeira é impressionante: apenas em 2019, suas receitas somadas ultrapassaram a casa dos US$ 900 bilhões. O crescimento foi catalisado pela ascensão das redes sociais, mídias digitais, barateamento de eletrônicos e, mais recentemente, pela inteligência artificial.
O Custo da Inovação e a Concentração de Poder
O funcionamento dessas organizações gera divisas significativas em impostos e empregos, especialmente nas nações desenvolvidas, e promove uma integração sem precedentes das cadeias produtivas globais. No entanto, o modelo de negócios baseado na prestação de serviços digitais e na venda de publicidade traz consigo desvantagens críticas.
A concentração do mercado nas mãos de poucos players eleva os custos para o consumidor final e pode fomentar o desemprego estrutural. Mais alarmante, porém, é o impacto social: o controle de dados e a influência nos modos de vida geraram um debate intenso sobre privacidade e autonomia. É um cenário onde o usuário deixa de ser o cliente para se tornar, muitas vezes, o produto.
Um Contraponto Ético: A Ascensão do UpScrolled
É justamente como resposta a esse domínio hegemônico e às práticas questionáveis das gigantes que surgem iniciativas como o UpScrolled. Apresentado recentemente no Web Summit Qatar, o aplicativo social posiciona-se como uma antítese ao modelo do Vale do Silício. Lançada no ano passado, a plataforma já acumula milhões de downloads e lidera rankings em países como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália.
Issam Hijazi, fundador do UpScrolled, foi enfático em seu discurso durante a abertura do evento, criticando duramente a ética das Big Techs. Segundo o executivo, essas corporações priorizam o lucro em detrimento das pessoas, comercializam dados de usuários e desenham plataformas intencionalmente viciantes, ignorando a saúde mental coletiva.
Embora o UpScrolled ofereça funcionalidades familiares — como postagem de fotos, vídeos e mensagens diretas, similar ao Instagram ou X —, a filosofia por trás da ferramenta é divergente. Hijazi insiste que, enquanto outras redes usam algoritmos para prender a atenção do usuário “sem gerar valor”, o UpScrolled foi desenhado para permitir que as pessoas consigam se desconectar.
Transparência e o Fim da Ditadura do Algoritmo
A discussão levantada pelo novo aplicativo ganha força em um momento em que a confiança nas plataformas digitais é debatida globalmente, exemplificada pelas negociações envolvendo o TikTok nos Estados Unidos. A preocupação com a segurança nacional, moderação de conteúdo e a “caixa preta” dos algoritmos trouxe à tona a questão de quem realmente controla o que consumimos.
Para Hijazi, não se pode culpar apenas a tecnologia, mas sim quem a constrói. Ele alerta que, nos bastidores das grandes empresas, algoritmos são treinados para amplificar ou suprimir conteúdos de acordo com agendas específicas. O UpScrolled promete, portanto, liberdade de expressão sem censura algorítmica ou “shadow bans” (bloqueios invisíveis), operando dentro das diretrizes legais, mas garantindo autonomia ao usuário.
O sucesso rápido do aplicativo e a migração de usuários das redes sociais tradicionais indicam que há espaço para novatos que respondam aos anseios do público por transparência. Investidores alinhados a essa visão ética já demonstram interesse, sugerindo que o monopólio das Big Five pode enfrentar, finalmente, uma concorrência baseada em valores, e não apenas em tecnologia. A missão agora, segundo seu fundador, é manter o ímpeto e provar que é possível construir uma “plataforma para as pessoas”.